Sword World: Lendário RPG japonês vai chegar ao ocidente

Faz tempo que eu não falo de RPG de mesa por aqui e isso é até estranho, pois ando consumindo muita coisa nova sobre meu hobby predileto – e rascunhado algumas pautas para compartilhar com vocês muito em breve! Mas uma notícia me chamou muito a atenção entre as novidades da Gencon e outros acontecimentos do mercado editorial: trata-se do anúncio de uma versão ocidental de Sword World, um RPG que fez história no Japão e consegue ser mais popular por lá do que Dungeons & Dragons!

Sword World foi criado pela Group SNE e tem uma longa história na Terra do Sol Nascente. Inclusive, mesmo que você não conheça o RPG de mesa nipônico, é provável que já tenha consumido algum produto relacionado a ele, especialmente se além de RPGs de fantasia, for um fã de animes das antigas. Para explicar essa história, tenho que voltar algumas décadas no tempo, até junho de 1985 quando a editora japonesa Shinwa Co. lançou por lá uma tradução de Dungeons & Dragons Set 1: Basic Set, a famosa Caixa Vermelha. Repetindo o fenômeno de vendas do mundo ocidental, o lançamento foi um sucesso, e em 1991, mais de 200 mil unidades do Basic Set já tinham sido vendidos no Japão.

Entre esses milhares de grupos de jogadores de Dungeons & Dragons, estava um grupo de amigos que decidiu registrar suas aventuras e publicá-las em uma revista, a Comptiq. Embora a publicação da Kadokawa fosse dedicada aos games de PC, os editores perceberam a intersecção entre os dois hobbies e abriram espaço para o que ficou conhecido com TRPG Replay – a publicação das sessões de jogo de um grupo de RPG, ou como nós conhecemos hoje em dia, Actual Play. Sim, esse gênero de entretenimento tão popular em 2025 (com grupos famosos como o Critical Role norte-americano, as lives de Tormenta e Ordem Paranormal, entre tantos outros canais que fazem do Actual Play um fenômeno e impulsionam as vendas dos RPGs de mesa como nunca antes) nasceu lá em 1986, nas páginas de uma revista japonesa, em uma sessão intitulada D&D Magazine Live: Record of Lodoss War Replay.

Com Record of Lodoss War, nasceram o Actual Play e também as light novels e o RPG Sword World
Com Record of Lodoss War, nasceram o Actual Play e também as light novels!

Como eu dizia, talvez você não conheça Sword World, mas já consumiu ou ouviu falar de Record of Lodoss War, correto? A franquia que nasceu nas páginas da Comptiq conquistou uma legião de fãs no Japão e aos poucos, no resto do mundo, ganhando adaptações para outras mídias, inckuindo animes, áudio dramas, mangás e videogames. Por sinal, a primeira adaptação foi em formato de romance, fazendo da franquia uma pioneira em outro formato muito popular nos dias de hoje, as light novels – um mercado que hoje vale mais de US$ 392 milhões de dólares, só no Japão. As light novels de Record of Lodoss War venderam mais de 10 milhões de cópias desde seu lançamento – e você encontra os livros em vários idiomas, inclusive em português aqui no Brasil, com seus volumes publicados pela editora NewPOP, com o título traduzido de Crônicas das Guerras de Lodoss.

Como Sword World bateu D&D no Japão

Porém, o que começou como um grupo de jogadores de Dungeons & Dragons registrando suas aventuras, acabou levando esses entusiastas particularmente criativos a decidirem criar seu próprio RPG de mesa. E olha que no começo, eles queriam apenas promover D&D no Japão, mas a TSR foi contra a proposta de tornar Record of Lodoss War parte da sua linha de produtos. Foi assim que o Group SNE criou Sword World.

A recusa da TSR, empresa dos criadores de D&D, fez com que o Group SNE decidisse desenvolver seu próprio jogo. Imagine que isso tivesse acontecido com o Critical Role e o grupo de Matt Mercer nunca tivesse lançado produtos para a Wizards of the Coast, e tivesse optado por apoiar o Pathfinder da Paizo, ou seguido direto para a criação de Daggerheart, seu próprio jogo. A história da quinta edição de Dungeons & Dragons poderia ter sido escrita de forma diferente.

Capa do livro de regras japonês de Sword World
Sword World não esconde a inspiração em D&D, mas traz elementos japoneses para seu universo de fantasia

Foi esse o impacto que o lançamento de Sword World no Japão teve sobre o mercado editorial e o RPG de mesa no país. Como eu disse, a Caixa Vermelha de D&D vendeu 200 mil unidades, mas a quando a terceira edição de Dungeons & Dragons chegou ao arquipélago, apenas 8 mil cópias foram vendidas. Mesmo hoje, a quinta edição do jogo publicado pela Wizards of the Coast não conseguiu cativar o público nipônico como fez no resto do mundo. Lá, o jogo de maior sucesso é Sword World, seguido por Call of Cthullu, o RPG de terror lovecraftiano da Chaosium – vale observa que ambos os jogos são publicados pela Kadokawa. A edição mais recente do RPG de fantasia foi lançada em 2018 e já ultrapassou a marca de 400 mil cópias vendidas.

Como se joga?

Eu tenho muita curiosidade em jogar Sword World. Sua ambientação é até que bem simples, com muitos elementos clássicos do RPG de mesa e da fantasia medieval – coisa que agrada bastante os entusiastas do gênero hoje em dia, veja aí o sucesso da chamada OSR (Old School Renaissance) que busca resgatar essa atmosfera dos primeiros anos de D&D e reimaginá-la em jogos modernos. Porém, o jogo também traz muitos elementos japoneses, e essa combinação única faz do cenário de Lodoss uma opção muito atraente para jogadores se aventurarem Seu sistema de jogo é chamado de 2D6 System, e pelo que eu li, é elogiado por ser intuitivo e rápido de aprender e jogar. Como isso se aplica a um jogo que tem sete diferentes formas de magia, cada uma com suas próprias mecânicas para conjurar feitiços é algo que eu ainda preciso descobrir.

Em 2003, o Sword World System foi renomeado 2d6 System e passou a ser usado em outros jogos.
Em 2003, o Sword World System foi renomeado 2d6 System e passou a ser usado em outros jogos – mas os títulos não são 100% compatíveis entre si

E talvez nem demore tanto assim para que eu – e você! – mergulhe nesse universo que conquistou o Japão ao longo das décadas. Sword World deve ganhar uma tradução em inglês em breve, através da Mugen Gaming, uma editora dedicada a trazer para o ocidente os melhores RPGs de mesa e jogos de tabuleiros do Japão. O financiamento coletivo da localização de Sword World começará no início de 2026.

Até lá, você pode acompanhar as novidades sobre Sword World se inscrevendo no site da Mugen Gaming, para receber notícias, previews e uma aventura one-shot gratuita do RPG de mesa que superou Dungeons & Dragons no Japão. Quem sabe a gente não vê uma edição brasileira daqui algum tempo?

Pablo Raphael produz conteúdo sobre jogos e cultura nerd/geek desde quando isso não era tão legal assim. Fã de RPG de mesa, live games, quadrinhos independentes e cerveja artesanal. Email para contato: [email protected]

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